O primeiro-ministro, Luís Montenegro, assinalou um ano de Governo no Mercado do Bolhão, no Porto, onde se realizou, esta quarta-feira, o Conselho de Ministros. Com o Governo agora demissionário, um ano após ter tomado posse, a situação foi criticada pela Oposição, que classificou as ações de hoje já como campanha eleitoral.
A 'dúvida' sobre se esta era uma ação de campanha ou não foi levantada logo à chegada do lugar histórico portuense, onde foi recebido com frases de apoio como "sou do PSD", "vamos ganhar" ou "muita sorte. Após distribuir beijos e abraços no mercado, Montenegro foi questionado sobre se já estava a fazer campanha, retorquindo que "não propriamente", e que estava apenas a cumprimentar as pessoas.
Já sobre se estava também em campanha para as autárquicas, uma vez que estava ladeado pelo ministro Pedro Duarte - que hoje anunciou a sua candidatura à Câmara do Porto - o primeiro-ministro rejeitou que esse fosse um assunto seu. No local estava também o presidente da Câmara do porto, Rui Moreira,
Já após o Conselho de Ministros, o chefe de Governo falou ao país, trazendo o tema da estabilidade para 'cima da banca'. "O país é hoje, como sabemos, um país com estabilidade económica, com estabilidade financeira, que teve estabilidade política e que está agora a viver um momento de clarificação", atirou, passando, de seguida, a nomear as principais medidas executadas durante os últimos meses, afiançando que "não há paralelo em relação aos anos anteriores".
Um aniversário tumultuoso (com as dúvidas a persistirem)
Um ano após o Executivo tomar posse, o 'briefing' que estava inicialmente previsto ser realizado numa sala, passou para o piso das bancas do Mercado do Bolhão, onde Luís Montenegro falou aos jornalistas. No mesmo local, tinha membros do Governo atrás de si, depois de o Governo ter posado para uma fotografia de família um ano após ter iniciado funções.
O primeiro-ministro recusou que estivesse em violação de "algum dever de neutralidade". "Não houve aqui nenhuma ação a colocar em causa esses princípios, é a minha convicção", referiu durante o 'briefing', defendendo: "As pessoas não vão decidir o seu sentido de voto pelo Governo ter vindo aqui hoje ou não. As pessoas vão decidir o seu sentido de voto por aquilo que acham que é melhor para o país daqui para a frente, e nós sujeitamo-nos a essa avaliação com humildade".
Luís Montenegro considerou que "a avaliação que se faz disso compete a cada pessoa", e referiu que não veio ao Bolhão "fazer campanha" ou "distribuir materiais de campanha."
Após o 'briefing', percorreu a zona principal do Bolhão em direção à saída onde, até lá, foi aproveitando para dar beijos às vendedoras e tirar `selfies´ a quem lhe pedia.
Já no exterior do mercado, e enquanto se dirigia para o Café Majestic, na Rua Santa Catarina, uma das mais movimentadas e turísticas do Porto, o primeiro-ministro, sempre rodeado dos ministros, ia saudando os comerciantes que estavam à porta curiosos com o que estava a acontecer. "Tem de acabar com eles" ou "Força" foram alguns dos incentivos que foi recebendo das pessoas com quem se cruzava.
As críticas
Após a passagem pelo Bolhão, Montenegro foi criticado pela Oposição, que considera que o momento foi propaganda eleitoral.
O Partido Socialista acusou o Governo de "instrumentalização do Estado ao serviço" dos interesses dos partidos e de "promiscuidade entre o que é privado, público e partidário", considerando que o Executivo está a fazer "campanha para o PSD". A crítica surgiu do porta-voz da candidatura socialista às eleições legislativas, Marcos Perestrello, que se referia-se quer ao comunicado da véspera do gabinete do primeiro-ministro, quer ao Conselho de Ministros de hoje.
Para o socialista, isso é "eticamente inaceitável, politicamente inadmissível e democraticamente intolerável".
Também o Partido Comunista Português, acusou o Governo de ter feito uma "grande operação de propaganda" no Porto, afirmando que, "numa penada", fez "uma ação de rua", apresentou um candidato autárquico e recolheu apoios num Conselho de Ministros.
Considerando "até embaraçoso olhar" para o que aconteceu no Porto, o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo defendeu que o Governo fez "uma grande operação de propaganda."
Da 'banca' para a CNE
Ainda durante a arruada, que não o era, Montenegro foi também questionado acerca de uma alegada mensagem que circulou entre os militantes do PSD que convidava os apoiantes "a ir cumprimentar" o presidente do Partido Social Democrata. O chefe de Governo disse disse desconhecer tal mensagem, mas admitiu "que possa haver trabalho político das estruturas partidárias, é normal", e que "com certeza terá justificação".
Na mensagem, a que a Lusa teve acesso, lia-se: "Caro(a) militante, informa-se que amanhã, dia 2 de abril, o primeiro-ministro Luís Montenegro estará na cidade do Porto, numa reunião do Conselho de Ministros que assinalará 1 ano de governação. O primeiro-ministro chegará ao Mercado do Bolhão pelas 10:20 e sairá pelas 12h:30. Todos estão convidados a ir cumprimentar o nosso presidente".
O Governo esclareceu ainda que informou todos os grupos parlamentares sobre a realização do Conselho de Ministros no Porto e que convidou deputados de todos os partidos, como acontece habitualmente nas deslocações de membros do executivo.
Já ao final da tarde, o PS apresentou uma queixa na Comissão Nacional de Eleições (CNE) contra a concelhia do PSD/Porto pela mensagem enviada aos militantes a convidá-los a cumprimentar o primeiro-ministro no Mercado do Bolhão.
Para o PS, está em causa "a violação dos deveres de neutralidade ou imparcialidade, pelo que deve ser instaurado o respetivo processo de contraordenação".
Na queixa, os socialistas referem que "a concelhia do PSD/Porto enviou uma mensagem aos militantes daquela estrutura para que marcassem presença no Mercado de Bolhão e pudessem cumprimentar o primeiro-ministro e presidente do partido", transcrevendo a mensagem na íntegra.
Também o Bloco de Esquerda reagiu à situação que se passou durante o dia desta quarta-feira, tendo a concelhia do BE no Porto apontando que o Bolhão é "do povo e não do marketing político do PSD e da sua AD". Numa nota, a concelhia lamentou ainda que o mercado tenho sido usado como "cenário de uma operação de propaganda partidária e eleitoralista".
Já o antigo candidato à liderança do PS José Luís Carneiro acusou o Governo de ter colocado o Estado ao serviço daquilo que comparou com "uma arruada".
[Notícia atualizada às 23h49]
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