Abdel (sobre)viveu 8 meses na rua: "A sociedade é a 1.ª testemunha"

'Por Detrás de um Rosto' é um projeto da associação Ser+ que além de querer devolver a "voz" às pessoas em situação de sem-abrigo, pretende fomentar a empatia junto da comunidade em geral. O Notícias ao Minuto esteve à conversa com a coordenadora da iniciativa, que já vai na sua segunda edição, e com um dos protagonistas, que hoje já tem uma casa onde viver.

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© Rute Raposo / Por Detrás de Um Rosto

Natacha Nunes Costa
02/04/2025 09:04 ‧ ontem por Natacha Nunes Costa

País

Sem-abrigo

O número de pessoas em situação de sem-abrigo tem crescido de forma acentuada em Portugal e uma das razões apontadas para esse aumento é a crise (e especulação) da habitação.

 

Entre 2019 e 2023, segundo dados da Cáritas, esta trágica cifra quase duplicou, passando de 7 para 13 mil os que vivem na rua no nosso país.

As mãos que se estendem para os ajudar a erguer – principalmente para os "humanizar" - são escassas e pouco se fala delas. Mas existem.

É o caso da Ser+, Associação Portuguesa para a Prevenção e Desafio à SIDA, que em 2021 abraçou o projeto 'Por Detrás de um Rosto', cujo objetivo principal, explicou a coordenadora e terapeuta Cindy Vieira ao Notícias ao Minuto, é "empoderar as pessoas em situação de sem-abrigo, dando voz às suas vivências" e reconstruir com elas "uma identidade positiva através das suas autoexpressões", das suas "memórias" e/ou "eventos de vida significativos".

"Respostas para ter alimentação ou para tomar um banho, as pessoas vão tendo. Mas falta-lhes o resto. Dar sentido à vida, à rotina. Há muitas respostas para suprimir as necessidades básicas, que são fundamentais, mas o que é que a pessoa faz o dia inteiro? Pensa-se muito na noite e quanto custa a noite, mas as pessoas também nos trazem muito o quanto custa o dia, são muita horas sem nenhum propósito, sem falar com ninguém", referiu Cindy, relatando o que um participante da primeira edição de 'Por Detrás de Um Rosto' lhe confessou.

"O momento mais feliz do dia era quando ele estava a arrumar carros e conseguia, pelo menos, dizer bom dia às pessoas, trocar três palavras com alguém", lembrou.

O projeto, implementado no âmbito da terapia ocupacional da Ser+ e que já deu azo a uma exposição, tem sido bem acolhido entre a comunidade sem-abrigo, que se sente ouvida e vista, ao contrário do teima em acontecer no dia a dia.

"Num momento inicial as pessoas podem sentir-se desconfortáveis e o que nos devolvem, no imediato, é que não estão habituadas a que alguém se interesse por elas e que as queiram conhecer. Mas depois sente que faz sentido: 'nunca ninguém se interessou mas quero partilhar aquilo que sinto, que penso, a minha história. Quero mostrar, o lado que as pessoas não veem'. Por isso, sim, tem sido muito bem recebido", contou Cindy.

O morador de rua primeiro contacta com a sociedade, com as pessoas que tem à volta, em redor e as pessoas não têm olhos para ver, infelizmente. A sociedade não quer ver

Abdel (sobre)viveu 8 meses na rua. "Pareciam uma eternidade”

Foi o que aconteceu com Abdel, de 50 anos, que viveu "oito meses que pareciam uma eternidade" na rua. Uma das coisas que mais o entristecia era a indiferença com que a comunidade em geral o tratava,

"O que me deixa mesmo triste é a sociedade não fazer nada para ajudar. A sociedade é a primeira testemunha, antes mesmo dos políticos. O morador de rua primeiro contacta com a sociedade, com as pessoas que tem à volta, em redor e as pessoas não têm olhos para ver, infelizmente. A sociedade não quer ver", realçou o marroquino, em entrevista ao Notícias ao Minuto.

E como Abdel, são muitos os que sentem o mesmo. "Aquilo que as pessoas [em situação de sem-abrigo] mais nos trazem é o quanto magoa a indiferença, o desprezo, associarem-nas a alguém que tem um comportamento desviante, alguém que não quer trabalhar, alguém que vive às custas do Estado. Estas associações muito imediatas, que é comum acontecer e que a maioria das pessoas sente como ofensivo e destrutivo", explicou Cindy.

Por isso é que um dos "objetivos secundários" de 'Por Detrás de Um Rosto' é, como especificou a responsável, "trabalhar e sensibilizar a comunidade para a problemática e estigma da discriminação" contra as pessoas em situação de sem-abrigo, assim como "abrir perspetivas e dar novos imputes aquilo que é o trabalho desenvolvido com esta população".

"A sociedade precisa de ser sensibilizada para a situação de sem-abrigo. A sociedade sabe mais do que os políticos, mas nem a sociedade, nem os políticos querem fazer alguma coisa para acabar com o sofrimento das pessoas e eu não tenho uma varinha mágica para mudar isso. Não tenho poder nenhum, é uma pena, porque senão, mudava isto. A sério", corroborou Abdel.

Depois de, na edição passada ter tido "bons resultados", a equipa da Ser+ decidiu avançar com uma nova edição de 'Por Detrás de Um Rosto', que termina agora com uma campanha nas redes sociais, dirigida à comunidade em geral, de forma a "trabalhar o estigma".

"O meu maior desejo é construir a minha própria casa"

No Instagram, o projeto mistura caras bem conhecidas – como José Raposo, Sofia Aparício e António Raminhos, que apoiam o projeto – com pessoas como nós, mas que tiveram a infelicidade de passar por desafios que as levaram à rua.

Ivanildo e Igor são apenas alguns que nos contam as suas histórias, as suas experiências. Que recordam com a voz embargada o quão difícil é o contexto de rua. A indiferença. O desprezo. As horas sem propósito, sem falar com ninguém.

Mas também se emocionam ao revelar as vidas que já tiveram, lembrando que este 'azar' pode bater a qualquer porta. Os sorrisos, por vezes tímidos, descortinam também as vitórias, entretanto, conquistadas. A esperança reanimada.

"O meu maior desejo é construir a minha própria casa", confessou Ivanildo, a certa altura, mostrando que também ele segue "sonhando com o futuro", que não é fácil.

"Faltam respostas habitacionais"

A crise na habitação é, aliás, um dos principais fatores que, hoje em dia, atira as pessoas para a rua. "Faltam respostas habitacionais", precisou Cindy ao Notícias ao Minuto.

"O acompanhamento social é feito. As pessoas não estão na rua porque querem. Obviamente que passam por um processo - e é preciso respeitar também esse tempo - mas as pessoas querem sair da rua, falta é, efetivamente, casa", notou a coordenadora do projeto, admitindo que, nem todas as pessoas que participam no 'Por Detrás de Um Rosto' saíram da rua.

"Nós temos, efetivamente, um indicador e resultado de bastante sucesso. No conjunto das duas edições do projeto, 50% das pessoas saíram efetivamente da rua. Temos algumas ainda a pernoitar em casas abandonadas ou tendas ou numa situação mais oscilante, porque é, efetivamente, muito difícil a resposta habitacional. É cada vez algo mais presente para todas as pessoas. Temos várias pessoas a trabalhar e que ainda assim estão numa situação de muita vulnerabilidade e que não conseguem uma casa. Nós trabalhamos muito nisso. Felizmente, já muitas pessoas saíram do contexto de rua ao longo deste processo e isso deixa-nos muito contentes, mas temos de continuar a trabalhar porque outros ainda não conseguiram essa mudança e isso é fundamental", referiu.

Abdel é um dos casos de sucesso. Hoje em dia já tem um teto para o abrigar, "uma casa onde descansar" quando chega do trabalho. Mas houve tempos em que nem isso tinha.

"Muitas pessoas passam por esta situação, só que não têm coragem de falar. Para mim, os políticos e a sociedade são a chave fundamental para acabar com este tipo de situações. Há muitas casas abandonadas, muitos locais abandonados e ninguém está a aproveitar. Se o Governo conseguisse restaurar este tipo de tipo de casas, se estipulasse um valor mensal para pagar a renda dessas casas, as pessoas ganhavam e os políticos também", disse ao Notícias ao Minuto, em forma de apelo.

Mais empatia

O segundo objetivo – de criar mais empatia entre a comunidade – também está a ser atingido. As pessoas mostram "um novo olhar" ao serem confrontadas com as histórias de 'Por Detrás de Um Rosto'.

"O feedback tem sido muito bom. As pessoas têm nos escrito, têm feito chegar as suas mensagens. Acredito que estamos num caminho de maior sensibilidade e empatia", afirmou Cindy ao Notícias ao Minuto, relatando que estas mensagens são sempre mostradas aos 'protagonistas' das narrativas, que ficam "muito felizes" com a visibilidade (e oportunidade) com o projeto lhes trouxe.

"Sinto muita gratidão. Estou muito grato. A Ser+ deu-me tudo. Afeto, sinto-me em família. Espero um dia também contribuir. Espero um dia trabalhar lá, não sei, fazer parte disso, ajudar. A Ser+ está aqui no meu coração. Obrigado!", concluiu Abdel.

Leia Também: Cáritas alerta para aumento dramático da privação habitacional nacional

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