Condenação de Marine Le Pen abre "período de incerteza" para partido

Analistas políticos disseram à Lusa que a condenação, por desvios de fundos europeus, da líder histórica da extrema-direita francesa Marine Le Pen deu início a "um período de incerteza" para o partido União Nacional.

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© THOMAS SAMSON/POOL/AFP via Getty Images

Lusa
02/04/2025 17:47 ‧ ontem por Lusa

Mundo

França

A União Nacional (RN) "é um partido muito vertical, construído em torno do líder. O enfraquecimento da posição jurídica de Marine Le Pen abre um período de incerteza", disse Virginie Martin, politóloga e professora investigadora na Kedge Business School de Marselha, especialista no RN.

 

Na segunda-feira, Marine Le Pen foi condenada pelo Tribunal de Paris a quatro anos de prisão, dois dos quais não suspensos e sujeitos a um sistema de vigilância eletrónica, a uma multa de 100.000 euros e a cinco anos de proibição de se candidatar a cargos públicos, a cumprir imediatamente mesmo em caso de recurso.

Contudo, "Le Pen continuará a ser deputada pelo Pas-de-Calais até ao final do mandato" e como recorreu da decisão proferida pelo Tribunal, "a condenação não pode ser considerada definitiva", afirmou Émeric Bréhier, diretor do Observatório da Vida Política da Fundação Jean-Jaurès.

A potencial candidata às eleições presidenciais de 2027 e oito eurodeputados do partido foram considerados culpados de desviar fundos do Parlamento Europeu para assistentes entre 2004 e 2016, numa condenação que minou "minou tanto a direção como a organização do partido", devido à "ausência de uma estrutura coletiva e a dependência de uma única figura", salientou Virginie Martin.

Para a investigadora, "o tempo é certamente curto, mas uma audiência podia reclassificar esta decisão e permitir-lhe concorrer em 2027", já que devido à pena de inelegibilidade aplicada imediatamente, independentemente do recurso, Le Pen não é "legalmente elegível nesta fase".

Também para Victor Pereira, investigador da Universidade Nova de Lisboa e doutorado em História Contemporânea pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, "a caminhada judicial [de Marine Le Pen] ainda não acabou propriamente".

"O papel [de Marine Le Pen] nesta fase tensa é duplo: por um lado, está a travar uma batalha legal na esperança de que o Tribunal de Recurso reduza ou retire a inelegibilidade; por outro lado, está a gerir uma crise de liderança interna", defendeu Virginie Martin, referindo que "as ambições do RN continuam a ser as mesmas: ganhar as eleições presidenciais".

A situação "não anula a dinâmica do RN, mas revela as tensões internas e cria incertezas quanto à estratégia presidencial, seja em termos de candidato, de mensagem ou de capacidade de mobilização", acrescentou a politóloga, defendendo que "Jordan Bardella é a escolha óbvia, mas a transição não é assim tão simples", devido à eventual transferência de poderes não estar prevista "tão cedo".

Com apenas 29 anos de idade, o eurodeputado e presidente do RN, Jordan Bardella, tem muito para dar, sendo uma das figuras políticas preferidas dos franceses como mostrou uma sondagem do barómetro Odoxa, publicada na segunda-feira, que o coloca em terceiro lugar, depois de Marine Le Pen.

Impossibilitada de concorrer pela quarta vez às presidenciais enquanto "candidata forte" do RN, a líder terá de escolher um sucessor, entre apoiar "Jordan Bardella ou outra solução para líder incontestado (como Marion Maréchal Le Pen)", fazendo com que os membros do RN se combatam entre si, o que pode "enfraquecer o partido", referiu Victor Pereira.

Para Émeric Bréhier, "o voto RN é muito menos um voto de rejeição do que no passado, e muito mais um voto de apoio", por essa razão "um voto a favor de uma outra figura apoiada pela RN - e por Le Pen - como Jordan Bardella, podia muito bem produzir resultados semelhantes".

Victor Pereira considerou que Le Pen, a mostrar "incapacidade neste caso", já meteu em prática a estratégia da "extrema-direita para se vitimizar", nomeadamente num plano antissistema "para mostrar que é vítima do sistema em relação ao antissistema", o que pode levar alguns eleitores a acreditar.

"Por exemplo, ela fez algo que é bastante peculiar: saiu do Tribunal mesmo antes do fim do julgamento, já num plano antissistema no respeito às instituições, não fez isto com uma falta de respeito, mas para mostrar que é vítima do sistema", acrescentou.

Para Victor Pereira, "um dos grandes problemas no grande ato de Marine Le Pen e do RN é que passam o tempo a dizer que a justiça é elitista, e que não se metem pessoas condenadas na prisão, o que é uma injustiça" e, agora mostram uma contradição para o partido cujo lema é "cabeça alta, mãos limpas" contra a corrupção.

Leia Também: Juíza que condenou Le Pen alvo de ameaças. Está sob proteção policial

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