"Não se trata de uma 'trumpização' [a partir do nome do Presidente norte-americano, Donald Trump] total. A União Nacional [RN, na sigla em francês] continua empenhada na estratégia de respeitabilidade e desestabilização, quer aparecer como um partido de governo e sabe que um discurso demasiado extremo seria contraproducente", disse Virginie Martin, politóloga e socióloga francesa e professora investigadora na Kedge Business School de Marselha.
Para a politóloga francesa e especialista no RN, "já se regista uma radicalização controlada do discurso" do partido, com críticas "suficientemente virulentas para mobilizar a base, mas suficientemente comedidas para não sair do jogo democrático".
"Mas uma coisa que é interessante comparada com os Estados Unidos, por enquanto, não houve uma mobilização de militantes ou de eleitores da extrema-direita", afirmou Victor Pereira, investigador da Universidade Nova de Lisboa e doutorado em História Contemporânea pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris.
Para o politólogo luso-francês, "a extrema-direita consegue mobilizar nas urnas, mas não consegue mobilizar nas ruas, pelo menos por enquanto".
Na segunda-feira, a líder do RN foi condenada por desvio de fundos do Parlamento Europeu pelo Tribunal de Paris a quatro anos de prisão, dois dos quais não suspensos e sujeitos a um sistema de vigilância eletrónica, a uma multa de 100.000 euros e a cinco anos de proibição de se candidatar a cargos públicos, a cumprir imediatamente mesmo em caso de recurso.
Entretanto, o RN apelou para uma mobilização pacífica em Paris, no domingo, o que para Victor Pereira pode ser "perigoso porque se há pouca gente, pode mostrar que não tem apoio", já que embora tenham milhões de votos, não são eleitores com a prática de se mobilizar, não é da "cultura política da extrema-direita".
"O tiro pode sair pela culatra, porque pode haver pouca gente na rua, contrário a outras manifestações, como a manifestação da reforma das pensões, o que pode ter uma distorção na imagem do apoio que o partido pelo menos nas ruas", defendeu.
"A mobilização será, sem dúvida, "peticionária", mas daí até às manifestações de massas vai um passo, ou mesmo um abismo, que parece muito difícil de transpor", afirmou Émeric Bréhier, diretor do Observatório da Vida Política da Fundação Jean-Jaurès.
Também Virginie Martin defendeu que "para já, a mobilização é essencialmente simbólica e digital. O RN está a confiar em campanhas de 'hashtag' ("Apoio Marine", "Democracia executada") e petições, em vez de manifestações de rua", isto é "uma forma de mobilização de baixo risco, que permite avaliar o apoio sem se expor a um fracasso visível".
"Mas isto pode mudar, dependendo do contexto mediático e das reações políticas", segundo a investigadora, que considera que "a verdadeira questão é saber qual será a recetividade da opinião pública", com foco para as sondagens sobre a legitimidade da condenação de Le Pen, sob a qual se centrava todo o sistema político.
Tendo em conta que o voto na RN "é hoje muito mais um voto de apoio do que de rejeição, há poucas hipóteses de ver o equilíbrio político expresso pelas sondagens de opinião alterar-se profundamente", segundo Émeric Bréhier.
Virginie Martin defende ainda que "os efeitos colaterais deste caso para o resto do espetro político são múltiplos", porque os líderes da oposição, como Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, perderam um adversário estratégico.
"Marine Le Pen desempenhava o papel de uma figura repelente útil", referiu Martin, acrescentando que "as clivagens culturais e identitárias" da esquerda radical se tornaram "linhas vermelhas para o eleitorado da RN".
Já "no centro e na direita, o desaparecimento - ainda que temporário - de Marine Le Pen cria um vazio estratégico", pois é a adversária ideal que permite que "ganhem facilmente", como aconteceu nas eleições presidenciais de 2017 e 2022 e, "sem ela, a segunda volta torna-se mais incerta, mais aberta, mais perigosa".
Isto pode também representar "um envolvimento de Éric Zemmour", candidato da extrema-direita Reconquista nas eleições presidenciais de 2022, já que Marion Maréchal Le Pen, sobrinha de Marine Le Pen, pode "não estar à altura", de acordo com Victor Pereira.
O investigador defende que "há uma certa cultura da extrema-direita que é patriarcal e que Zemmour representa", referindo que é incerto ainda a dinâmica com os outros partidos, nomeadamente, a extrema-esquerda, a esquerda, a direita e o centro, "que se mobilizam contra o perigo fascista e Marine Le Pen".
Ainda é incerto se a saída de Le Pen da liderança do partido, "vai talvez tornar o RN um partido menos perigoso ou vai ser um perigo, se vai continuar a banalização ou, pelo contrário, vão voltar a radicalizar-se", referiu Victor Pereira.
Leia Também: Condenação de Marine Le Pen abre "período de incerteza" para partido