O português reconhece que uma guerra comercial entre a UE e os Estados Unidos da América (EUA) vai ter efeitos diferenciados dentro da Europa, e que países e economias menores são mais vulneráveis.
"Como é que isso depois é gerido? Tem que ter o acordo dos Estados-membros sobre uma lista de produtos ou uma lista de setores ou um tipo de ações que se vai fazer. E aí é sempre uma negociação difícil, porque cada país tem a sua sensibilidade. Tem que haver um equilíbrio global disso. Nem sempre é fácil", admitiu, em declarações à agência Lusa em Londres.
No entanto, acrescentou, "uma coisa é certa: se Portugal estivesse sozinho a lidar com os Estados Unidos, a situação seria consideravelmente pior".
Na quarta-feira, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou uma tarifa de base de 10% sobre todas as importações dos EUA, mas que varia conforme os diferentes países ou blocos, tendo a UE sido sujeita a taxas de 20%.
Separadamente, vão ser aplicadas tarifas de 25% sobre automóveis e camiões ligeiros importados pelos EUA, a adicionar aos 25% impostos em fevereiro sobre o aço e alumínio.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, confirmou hoje que o bloco está a trabalhar em medidas de resposta.
"Já estamos a finalizar o primeiro pacote de contramedidas em resposta às tarifas sobre o aço e estamos agora a preparar outras medidas para proteger os nossos interesses e empresas, caso as negociações falhem", afirmou Von der Leyen.
Vale de Almeida, que trabalhou durante 40 anos para a UE, afirmou que uma eventual represália poderá ter a forma de tarifas aduaneiras sobre bens ou uma dimensão regulatória sobre serviços como, por exemplo, empresas tecnológicas.
"Essa [regulatória] não teria consequências para o vinho português e para o champanhe francês. Na minha opinião, será um misto de várias coisas, tentando repartir para os Estados-membros a fatura", afirmou o antigo embaixador da UE nos EUA (2010-2014), na ONU (2015-2019) e no Reino Unido (2020-2022).
O português, que também foi chefe de gabinete de José Manuel Durão Barroso quando este foi presidente da Comissão Europeia, admitiu que alguns países vão ser afetados mais do que outros, e que "cabe aos negociadores portugueses também verem onde é que podem insistir".
"Numa guerra comercial, perdem todos. Nós vamos perder, é preciso não ter ilusões sobre isso. Os americanos também vão perder. Eles acham que perdem no início e depois vão ganhar. 'I beg to disagree', comentou, usando a expressão em inglês para discordar da teoria da Casa Branca (presidência norte-americana).
O antigo diplomata elogiou a "tranquilidade" com que os líderes europeus reagiram às notícias vindas de Washington e afirmou acreditar que a estratégia será identificar "pontos críticos" do plano e dos Estados Unidos, sem, frisou, "ao mesmo tempo, nos penalizarmos demais".
"Não podem projetar nervosismo, não podem aparecer como fragilizados e ter medo do senhor Trump. Não se pode ter medo de uma pessoa como o Donald Trump", afirmou.
Para Vale de Almeida, a UE tem a seu favor a força comercial, por ter o maior mercado interno do mundo, e a capacidade regulamentar, "que é mundialmente reconhecida e temida".
"E em relações internacionais, o tamanho conta", ironizou.
A política de tarifas de Trump, na sua opinião, "é anacrónica, é contra os interesses americanos, da economia americana, é contra os interesses da economia mundial".
"Obviamente que há correções a fazer, mas ele devia, antes de mais, juntar-se a nós para fazer pressão sobre a China, porque a China é que está a violar uma série de regras", argumentou.
"Não precisávamos disto. A única coisa que faltava agora era uma guerra comercial em cima de toda a confusão geopolítica", acrescentou.
O antigo diplomata está em Londres para apresentar o seu livro "O Divórcio das Nações", publicado hoje em inglês e cuja edição em português deverá ser lançada em outubro.
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