O "Dia da Libertação". Foi desta forma que Donald Trump se referiu, esta quarta-feira, ao novo pacote de tarifas que os EUA vão passar a aplicar aos produtos provenientes da UE (e não só).
Entre sorrisos e frases positivas, o presidente dos EUA considerou que o dia 2 de Abril é o dia em que "começámos a tornar a América novamente rica".
Após o anúncio não demorou muito para que a União Europeia respondesse, ameaçando retaliar na mesma medida.
As "tarifas recíprocas" do "generoso" Trump
Donald Trump já tinha ameaçado várias vezes. E ontem foi o dia em que concretizou as suas promessas. Entre as medidas anunciadas consta uma tarifa de 25% a todos os automóveis fabricados fora do país e a aplicação de uma taxa de 20% à União Europeia (UE), com o republicano a descrever-se como "generoso" por aplicar metade dos 39% aplicados aos produtos norte-americanos.
Trump considerou que a medida marca o início "da independência económica" dos Estados Unidos e alegou que estaria apenas a reagir ao que os outros países fazem, referindo mesmo que os EUA têm sido "saqueados, pilhados e violados por nações próximas e distantes, amigas e inimigas". "Isto significa que eles fazem-nos a nós e nós fazemos-lhes a eles. Muito simples. Não há nada mais simples do que isso".
Exibindo um cartaz onde apresentava as taxas que são exigidas por outros países aos EUA, e as taxas que os EUA vão exigir a esses mesmos países, Donald Trump considerou que estava a ser "muito simpático" ao impor taxas mais reduzidas do que aquelas que lhe são impostas.
UE "lamenta" mas está pronta para reagir
O anunciou de Trump chegou rapidamente aos visados, que não perderam tempo em reagir. A presidente da Comissão Europeia considerou tratar-se de "um rude golpe" para a economia global, mas garantiu que o bloco está "pronto para responder" e está a trabalhar em novas medidas de retaliação.
"Já estamos a finalizar o primeiro pacote de contramedidas em resposta às tarifas do aço e estamos agora a preparar outras medidas para proteger os nossos interesses e negócios, se as negociações falharem", disse a dirigente.
Com as tarifas americanas, os países da UE passam a pagar 20 por cento de tarifas, metade de 39% de barreiras comerciais e não comerciais que a Administração Trump estima que os produtos norte-americanos enfrentam no acesso aos mercados europeus.
A presidente da Comissão Europeia pediu unidade dentro do bloco face às tarifas e salientou que o mercado interno é um "porto seguro" face à guerra comercial.
"A Europa tem tudo o que precisa para enfrentar a tempestade" das tarifas, disse von der Leyen, sublinhando que a UE "se manterá unida e defender-se-á mutuamente".
Países da União Europeia unidos, mas preocupados
Países da União Europeia demonstraram hoje preocupação face às tarifas impostas sobre todas as importações e sobretaxas para os países considerados particularmente hostis ao comércio.
Na senda das afirmações de Von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, anunciou o seu "apoio total à Comissão Europeia nas negociações comerciais com os Estados Unidos".
"O comércio é um poderoso motor da prosperidade mundial e a UE continuará a ser uma firme defensora do comércio livre e equitativo", reagiu António Costa, numa publicação na rede social X.
Full support for the @EU_Commission in trade negotiations with the US.
— António Costa (@eucopresident) April 3, 2025
Trade is a powerful engine of global prosperity. The EU will remain a staunch advocate for free and fair trade.
We will engage with all our partners and continue to strengthen and expand our trade network.…
Em Espanha, o Executivo anunciou o recurso aos instrumentos comerciais e financeiros de que o Estado dispõe para implementar uma rede de proteção imediata e uma estratégia de relançamento dos setores afetados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, sublinhou que as novas tarifas dos EUA são uma "má jogada" que apenas enfraquece o Ocidente, enquanto o primeiro-ministro irlandês, Michael Martin, pediu uma resposta proporcional.
O Reino Unido negou-se a retaliar no imediato e defendeu uma negociação antes de tomar qualquer medida, enquanto o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, defendeu que as tarifas são "totalmente injustificadas".
A França vai mais longe e diz que a UE "pronta para uma guerra comercial" com os Estados Unidos, e que já planeia "atacar os serviços digitais". As respostas já estão a ser preparadas e irão ser aplicadas ainda este mês. O presidente francês, Emmanuel Macron, vai reunir-se hoje à tarde com representantes das indústrias afetadas pelas medidas tarifárias anunciadas pelos Estados Unidos.
O Canadá disse que vai lutar contra as tarifas nos setores do aço, alumínio e automóvel "com contramedidas".
Berlim declarou hoje apoio à União Europeia (UE) na procura de uma solução negociada com Washington sobre as novas tarifas anunciadas por Donald Trump, reiterando que a Europa está pronta para retaliar.
O vice-chanceler alemão, Robert Habeck, alertou que os novos impostos norte-americanos podem arrastar países para a recessão e causar danos consideráveis em todo o mundo.
Na Polónia, o primeiro-ministro, Donald Tusk, afirmou hoje que são necessárias decisões adequadas.
Na Dinamarca, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Lokke Rasmussen, disse que a Europa deve permanecer unida e preparar respostas "sólidas" e proporcionais.
Mercados já estão a cair
Os mercados financeiros registaram quedas uma vez que tanto os aliados tradicionais como os concorrentes dos Estados Unidos avisaram que estavam a preparar um contra-ataque.
A ofensiva protecionista de Washington, como não se via desde os anos 1930, inclui uma tarifa mínima adicional de 10% sobre todas as importações e sobretaxas para os países considerados particularmente hostis ao comércio.
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