Ao contrário de outros analistas, o antigo diplomata português, que esteve oito anos naquele país ao serviço da União Europeia (UE), primeiro em Washington, entre 2010 e 2014, e depois na ONU, entre 2015 e 2019, entende que a matriz não é nova e que já existia noutras administrações anteriores.
"Estas tendências que já lá estavam, e flutuam na história dos Estados Unidos (EUA). O que ele (Presidente Donald Trump) traz é uma forte dimensão de nacionalismo económico", disse numa entrevista à agência Lusa em Londres.
Na quarta-feira, o Presidente norte-americano anunciou uma tarifa de base de 10% sobre todas as importações dos EUA, mas que varia conforme os diferentes países ou blocos, como a União Europeia (20%), Japão (24%), Índia (26%) ou Vietname (46%).
Separadamente, vão ser aplicadas tarifas de 25% sobre automóveis e camiões ligeiros importados pelos EUA, a adicionar aos 25% impostos em fevereiro sobre o aço e alumínio.
O ex-diplomata português receia que o distanciamento dos EUA dos seus aliados represente mais um sinal do fim do consenso internacional herdado do pós-Segunda Guerra Mundial, ao qual chama de "divórcio de nações", o título de um livro que publica hoje em inglês no Reino Unido.
A edição em português da obra "O Divórcio de Nações" deverá ser lançada em outubro.
"Acho que este 02 de abril é, ao contrário do que diz o Sr. Trump, que acha que é o dia da libertação, para mim é o dia do divórcio. É uma boa ilustração da tese do meu livro. No fundo estamos, temos estado a caminhar e continuamos infelizmente a caminhar, se calhar até em passo mais acelerado, depois da eleição do Presidente Trump, para o divórcio das nações", referiu.
Vale de Almeida diz estar a observar-se "uma fragmentação da ordem global, uma tensão nas relações económicas, comerciais, políticas entre os Estados, numa perspetiva não de cooperação para encontrar soluções comuns para problemas comuns, mas numa lógica de competição, do poder pelo poder, do poder pelos poderosos, das zonas de influência, que é o contrário a tudo aquilo que tentámos construir, certamente desde a Segunda Guerra Mundial e muito particularmente desde o fim da Guerra Fria".
Durante os quase nove anos que viveu nos Estados Unidos, o português fez questão de visitar os 50 estados e contactou com diferentes Presidentes, desde George W. Bush a Barack Obama, os secretários de Estado Hillary Clinton e John Kerry, mas também empresários, académicos e cidadãos comuns.
A impressão que retirou foi que os norte-americanos consideram os EUA "um país superior" a nível mundial.
"Excecional, é a expressão que eles utilizam", resultado de "uma sensação de quase inviolabilidade, porque estão protegidos por dois grandes oceanos" e sem ameaças a norte ou a sul, prosseguiu o antigo diplomata.
"Têm uma dimensão continental geograficamente, uma grande força militar, uma grande força científica, tecnológica e um grande 'soft power', uma grande capacidade de influenciar culturalmente o mundo. Sentem-se relativamente tranquilos, do ponto de vista de ameaças externas, e desenvolvem de forma regular surtos de isolacionismo que os leva a dizer: 'Não nos interessa o resto do mundo, a gente agora tem de se concentrar no nosso problema'", resumiu o antigo embaixador.
Apesar de terem rompido esse isolacionismo, durante a Segunda Guerra Mundial ou no Vietname, e, mais recentemente, em intervenções no Iraque, Afeganistão ou Kosovo, Vale de Almeida notou uma resistência ao envolvimento direto noutros conflitos, como fez Barack Obama na Síria e Joe Biden na Ucrânia.
A segunda presidência de Trump, seja na sua política externa ou comercial, representa tendências históricas, "matizadas ou acentuadas, por esta dimensão de nacionalismo económico e de algum imperialismo", salientou.
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