"Somos um coro ativista e de intervenção pelo bem comum e também pela vida, pelo cuidado pela terra e pelo direito à cidade, e o direito à cidade também é isto, cuidar destas árvores, termos este abrigo destas árvores que há dezenas de anos nos dão sombra, nos dão biodiversidade na cidade", explicou Carolina Castro, do Coro dos Comuns.
A jovem ativista, que falava à Lusa junto à estação ferroviária de Entrecampos, integrava a dezena de ativistas que compareceu à ação de resistência "Somos Jacarandá", convocada pelos coletivos Coro dos Comuns, 'Extinction Rebellion' e Lisboa Possível, contra o abate dos jacarandás da Avenida 5 de Outubro.
"Há tantos outros usos que poderiam dar a este espaço, poderia ser feita uma floresta, hortas comunitárias, um uso urbano de outras formas que não replantar árvores que nem sabemos quanto tempo é que demoram a chegar a este porte, a este benefício para a cidade", advogou Carolina.
A jovem salientou que "outras cidades, como Paris e Barcelona, estão a retirar estradas e parques de estacionamento para darem lugar a outros usos, para adaptação às alterações climáticas", e vê-se "o contrário a ser feito em Lisboa".
A porta-voz do Coro dos Comuns admitiu que a ação da autarquia lhes provoca indignação e lamentou haver "árvores que já foram afetadas nas raízes".
"Não há razão nenhuma para que se abatam estas árvores, há cerca de mil lugares vagos diariamente nos parques subterrâneos e os prédios que vêm para aqui têm também o seu parqueamento", afirmou Ana Gaspar, ex-presidente da Junta de Freguesia das Avenidas Novas.
A ex-autarca assegurou estar presente apenas "como cidadã" e por viver na zona "parte da família", e considerou que "o reperfilamento daquele troço da rua não tem de ser feito à custa das árvores que não estão doentes".
Enquanto a dezena de ativistas esperava junto à estação ferroviária, sob o olhar de outros tantos agentes numa carrinha da PSP, Hermínio Saraiva, 81 anos, deslocou-se de autocarro do concelho de Torres Vedras, para assistir ao protesto e participar na sessão de esclarecimento da Câmara de Lisboa, que entretanto foi adiada pela autarquia.
"Só demonstra que primeiro planearam mal e depois têm medo do povo", comentou o octogenário, quando foi informado do adiamento da sessão, e um pouco inconformado pois, defendeu, "estas sessões deviam ser na praça pública".
O antigo morador da cidade, durante seis décadas, e que trabalhou num escritório de arquitetura na Avenida 5 de Outubro, recordou os tempos em que via "os jacarandás a florir", mas assumiu que, para si, "as árvores são sagradas" e "o respeito pelas árvores é o mesmo que pelo ser humano, pois são fonte de oxigénio" e "irmãs".
Os coletivos convocaram a ação para protestar contra a Câmara de Lisboa ter avançado com a remoção de jacarandás, apesar das mais de 51 mil assinaturas na petição pública "Não ao abate dos jacarandás" e das sessões de esclarecimento agendadas.
A sessão prevista para o Centro de Informação Urbana de Lisboa (CIUL), em Picoas, acabou por ser adiada para quarta-feira, no Fórum Lisboa, na Avenida de Roma, sobre o projeto Entrecampos, que inclui sete edifícios de escritórios e três residenciais, interligados por um conjunto espaços comerciais, de restauração e de lazer ao ar livre, integrados em 17.000 metros quadrados (m2) de espaços verdes e públicos.
Hermínio Saraiva não pôde hoje dar uso ao megafone de plástico que comprou num "chinês e custou 20 euros e qualquer coisa", mas não deu a viagem por perdida e gravou com a pequena câmara fotográfica a atuação do grupo ativista junto a uma passadeira de acesso à estação, que cantou aos jacarandás o "encanto" que dão à cidade e a tristeza de os ver "partir".
Leia Também: CML adia sessão de esclarecimento sobre remoção de jacarandás