Madeleine Pereira, filha de pai português e mãe franco-brasileira, nasceu em 1997, em França, onde ainda hoje vive e trabalha. Cresceu com muitas perguntas sobre as suas raízes familiares portuguesas e sem saber quase nada sobre a História do país, a não ser o que aprendeu na escola.
Em "Borboleta", que combina biografia, autobiografia e ficção, Madeleine Pereira conta que foi a avó paterna, porteira em Paris, que lhe falou sobre Salazar, a ditadura em Portugal e a razão de ter emigrado. Na escola, descobriu a comunidade portuguesa, mas também o preconceito dos franceses por ser de uma família de emigrantes e por ter um apelido estrangeiro.
Tudo isto é narrado nas primeiras páginas de "Borboleta", com a própria autora a autorrepresentar-se em diferentes tempos, na infância, na adolescência e já em adulta, quando tenta convencer o pai a contar-lhe a história de família para um projeto de banda desenhada.
"Eu vou a Portugal a cada dois anos para ver a família. Eu estou muito ligada, mas não entendo as minhas origens. (...) E eu queria fazer histórias de outras pessoas que fugiram de Portugal entre os 10 e os 18 anos, mas depois pensei como faria para relacionar todas as histórias. A melhor coisa seria colocar-me também na história", contou em entrevista à agência Lusa a partir de Angoulême, onde vive.
Com um pai renitente em relevar o passado, Madeleine Pereira encontrou respostas sobre Portugal através de amigos e de uma tia, transpondo para a banda desenhada cinco histórias de portugueses que decidiram emigrar nos anos 1960 e 1970.
Em "Borboleta" está representada a repressão do Estado Novo, o medo dos jovens serem chamados para a Guerra Colonial, e as particularidades de uma sociedade autoritária nos costumes e na vida doméstica.
Para recriar visualmente aquilo que os entrevistados lhe contaram, nomeadamente paisagens, edifícios, interiores de casas, Madeleine Pereira recorreu a algumas fotografias de família, a documentação recolhida no Museu do Aljube, em Lisboa, a imagens de arquivo da RTP e a séries televisivas de época.
Desenhado a lápis de cor e a caneta preta, "Borboleta" cumpriu o propósito de a aproximar de Portugal e da família.
"Quando vou a Portugal, eu sinto-me francesa e quando estou em França, todo mundo faz-me sentir que sou portuguesa. (...) Quando estou em Portugal eu quero ser portuguesa, para não me sentir uma turista. Quando estou em França, também gosto de ser portuguesa, para mim é muito importante ter origens", sublinhou.
O título da banda desenhada relaciona-se com um episódio que Madeleine Pereira acabou por deixar de fora da história, e que remete para a final do europeu de futebol de 2016, que deu a vitória de Portugal perante a França.
"Eu estava no estádio com o meu pai e as minhas irmãs, estava na zona dos portugueses, quando o Cristiano Ronaldo se lesionou e apareceu aquela borboleta na cara dele. Um homem ao meu lado disse que a borboleta daria sorte e Portugal ganhou. Acabei por deixar cair a história, menos o título. Há quem veja a borboleta como uma coisa simbólica no livro", contou.
Madeleine Pereira estará esta semana em Portugal para apresentar "Borboleta" na quinta-feira no festival A Arte de Ser Migrante, em Lisboa, e no sábado na FNAC do Colombo, também na capital. Em maio estará no Festival de Banda Desenhada da Maia (Porto).
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