"Tal como o Luís amaria e desejaria, a equipa da Antígona, editora e 'aventura fascinante' que ele alimentou todos os dias e que sempre quis independente, continuará o seu legado", lê-se no comunicado enviado às redações.
Nascido em 1940, Luís Oliveira, "ingénito provocador", fundou a Antígona em 1979 e construiu um "catálogo coerente, de língua de fora, centrado na crítica do mundo e num eterno elogio à inteligência dos leitores", acrescenta.
Na sua editora publicou autores como Albert Cossery, Emma Goldman, George Orwell, Graça Pina de Morais, Guy Debord, Henry David Thoreau e Simone Weil, numa constante partilha com amigos, tradutores e revisores.
"Dono de uma força imensa e de uma energia contagiante, fazia do mundo um 'espaço de encontros que visam o prazer e a construção de um lugar ameno, deleitoso e voluptuoso'. Dançou até ao fim", descreve a editora.
Numa entrevista dada à agência Lusa, em 2018, Luís Oliveira explicou que todos os acontecimentos anteriores à criação da Antígona tiveram influência na sua formação, confessando depois ter sido sempre guiado por um espírito de inconformismo, desobediência e inquietação.
Na altura, já dizia sentir ter cumprido "cabalmente" a ideia de uma editora refratária, um inquietação que nunca parou.
Luís Oliveira teve uma pequena livraria em Santarém, entre 1970 e 1973, que vendeu para vir para Lisboa - com o dinheiro da venda e a ideia de abrir uma nova livraria.
Chegado à capital, deambulou pela cidade com escritores como Herberto Helder e António José Forte, com quem fez "uma preparação central" e leu "centenas de livros no campo da subversão", antes de abrir a Antígona.
Foi também nesse período que conheceu Eduardo Roth, um venezuelano, mais velho, que tinha conhecido Guy Debord em Paris, e que emanava "uma energia" que serviu a sua vida e o momento, recordou.
As aventuras que viveu com esse amigo, constituíram "uma experiência intelectual e prática da vida" que o marcaram "no campo refratário, da transgressão", embora a "ideia da desobediência" e a convicção de que "obedecer é morrer" o tenham acompanhado desde a infância.
O projeto Antígona "entroncava nessas experiências todas históricas" e o "programa começou a desenhar-se antes da abertura da editora, "a partir de livros" que leu e de "experiências marginais de vida".
O próprio símbolo -- uma cara a deitar a língua de fora -- simboliza uma forma refratária de existência: deitar a língua à sociedade.
Quase 40 anos depois da criação da editora, Luís Oliveira afirmou: "Há um princípio e um meio, mas ainda não há um fim. Cá estou eu para empurrar palavras contra a ordem dominante".
As cerimónias fúnebres de Luís Oliveira serão reservadas à família e aos amigos próximos.
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