Num documento que agrega 54 recomendações, especialistas em Cardiologia, Medicina Interna e Medicina Geral e Familiar sugerem diversas medidas para melhorar o diagnóstico da insuficiência cardíaca, com mais acesso tanto a análises específicas como às novas técnicas de ecocardiografia.
Um ano depois do estudo Porthos, da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e que concluiu que um em cada seis portugueses com mais de 50 anos tem insuficiência cardíaca e cerca de 90% nem sequer sabe, os especialistas unem-se agora para sugerir mais comunicação entre cuidados primários e hospitalares, um processo único eletrónico integrado e partilhado entre os diversos níveis de cuidados, equidade no acesso aos meios de diagnóstico mais eficazes e melhor acompanhamento do doente após alta hospitalar.
Em declarações à Lusa, Rui Batista, cardiologista e co-investigador principal do Estudo Porthos, salientou a importância de recentrar o modelo de cuidados de saúde, considerando que ainda está muito virado para a doença aguda (urgências).
"Temos um modelo muito desenhado para doenças agudas, que eram as que existiam mais nos anos 60, 70 e 80. Mas, hoje em dia, o que temos são doentes que sobrevivem às doenças agudas, mas têm doenças crónicas", explicou, salientando a necessidade de "plataformas intermédias" para acompanhar estas doenças.
Estas "clínicas intermédias" - disse - "são fundamentais para o acompanhamento do doente crónico".
"Era muito relevante que o SNS favorecesse o desenvolvimento destas plataformas intermédias para acompanhar estes doentes crónicos e evitar internamentos por insuficiência cardíaca", afirmou o especialista, acrescentando: "Há boa evidência científica de que este tipo de estruturas reduzem entre 30 a 50% os recursos à urgência e os internamentos".
Segundo explicou, depois de ter sido publicado o despacho que irá concretizar a comparticipação pelo Serviço Nacional de Saúde de novas ferramentas de diagnóstico, importa agora dar formação específica aos profissionais de saúde, focadas na interpretação quantitativa e qualitativa do marcador em causa (na análise sanguínea).
Além de recomendações para melhorar a referenciação dos doentes e o seguimento atempado, usando os resultados do Porthos como argumento para a comparticipação de meios complementares essenciais ao diagnóstico, os peritos apontam ainda para a necessidade de maior literacia.
Neste campo, sugerem formação para os médicos de família a nível nacional sobre diagnóstico e terapêutica e critérios de referenciação de doentes com insuficiência cardíaca, assim como a gestão desta patologia como modelo de doença crónica, com "caminhos integrados" entre os cuidados de saúde primários e hospitalares.
Pretendem igualmente que se promova um maior conhecimento da doença através de campanhas públicas nacionais, "com linguagem acessível e simples" e envolver a Direção Geral da Saúde (DGS) em parcerias de comunicação sobre a insuficiência cardíaca nas redes sociais.
Para aumentar o conhecimento da doença, defendem igualmente que se deve priorizar a insuficiência Cardíaca no Plano de Emergência e Transformação da Saúde, no Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares e no Plano Nacional de Saúde 2030, da DGS.
O estudo Porthos, divulgado há um ano, atualizou as estimativas de 1998, que apontavam para uma prevalência que rondava os 400 mil portugueses com insuficiência cardíaca e que hoje chega aos 700 mil.
A maior parte dos custos ligados à insuficiência cardíaca em Portugal estão relacionados com os internamentos, uma vez que a doença é diagnosticada já numa fase em que se torna mais cara para o sistema.
Um trabalho publicado em 2020 na Revista Portuguesa de Cardiologia estimava que os custos totais da insuficiência cardíaca, por efeitos da evolução demográfica, atingiriam os 503 milhões de euros em 2036. Contudo, na altura a estimativa apontava para a existência de 400 mil portugueses com esta síndrome, números que quase duplicaram.
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